domingo, 12 de setembro de 2010

Sacrificio


Foto: Orlando Luis Pardo Lazo

Pegou a missão por várias razões: depositariam 50 CUC mensais num banco em Cuba, poderia adquirir os eletrodomésticos que tanto necessitou durante a vida toda, compraria roupa para seus filhos e, além disso, sairia da maldita policlínica que estava lhe acabando com a existência.

Sabia que a Venezuela era um país bem violento e politicamente instável, porém a delegação cubana estaria bem protegida, supostamente era prioridade. Os localizaram nas cercanias, uma zona pobre e com muita deliquência. Ninguém lhe advertiu que ao chegar lhe seria tomado o passaporte e ficaria sem documentos. Trabalhou muito, descobriu que os venezuelanos em sua maioria sentem o mesmo que os cubanos: a política dividiu sua sociedade em dois.

Sofreu os ódios de um povo que, do mesmo modo que o seu, perdeu as rédeas do seu futuro. Descobriu que a paranóia não tem fronteiras e que o medo também viaja nos aviões. Um companheiro seu morreu num tumulto entre bandos do bairro. Pediu para regressar para Cuba porém o compromisso era interminável – como o partido comunista – e isso de ficar deprimida não é compatível com a solidariedade entre os povos. Todavia não pode regressar e para se consolar, a cada manhã em frente ao espelho, trata-se com: 50 cuc, 50 cuc, 50 cuc.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O acidente


Foto: Orlando Luis Pardo Lazo

Outro dia fui testemunha de um acidente em Luyanó. Orlando Luis e eu twitteamos o que pudemos e mal conseguimos tirar algumas fotos sem que uns tipos vestidos de civis nos tirassem nossas câmeras. Acidentes de trânsito ocorrem todo o tempo em qualquer lugar do mundo e me pergunto por que o governo cubano impede que estes sinistros cheguem à imprensa. É ridículo e penoso que membros da Segurança do estado se dediquem, em meio a uma catástrofe, a perseguirem camerazinhas e evitar repórteres.

Às vezes me parece que a censura e a burocracia são seres vivos, com suas próprias leis de sobrevivência, sua necessidade de se perpetuar e seus ciclos de vida. Coloca o Estado em risco dizer-nos quantos mortos e feridos houve no dia 20 de agosto, quais foram as causas do acidente e o que aconteceu com o chofer?

Já não se trata de imprensa livre, nem de liberdades políticas, nem sequer de direitos cidadãos. Trata-se de um monstro que em cinqüenta anos cresceu tanto que poderia engolir todos os acontecimentos da nação. Um monstro que se alimenta do nosso conhecimento, do nosso intelecto, da nossa capacidade de compreender a história. Um monstro que traga nossas desgraças e alegrias, nossos sonhos e nossas vidas.

domingo, 5 de setembro de 2010

Cansaço

Imagem: O Verdugo, por Luis Trápaga

Suas manhãs são as mesmas desde anos: comprar a farinha no mercado negro nas padarias estatais, conseguir os ovos que os vendedores levam escondidos nas mochilas, regatear as goiabas nas plantações para que o negócio lhe seja vantajoso. Com as altas e baixas que dependem do grau de repressão contra as “ilegalidades” que existam, consegue manter decentemente sua casa vendendo doces.

Porém as coisas se complicaram muito: por duas vezes teve que enfiar pela janela do pátio, a toda velocidade, algumas cigarrilhas que sua vizinha escondeu quando os inspetores vieram. Graças a Deus que isso não acontece frequentemente! Quando pode coloca nos cakes uns confeitos que sua irmã lhe manda de Miami onde tem uma pequena confeitaria muito próspera. Começou como ela em 2000, fazendo tudo sozinha, porém com o passar dos anos contratou uma ajudante e agora tem um negócio modesto que abastece de guloseimas uma boa parte do bairro.

Conta-me tudo com uma nostalgia infinita, uma inveja sã da sua irmã do outro lado que conseguiu “tocar pra frente”. Pergunto-lhe se pensa que Raúl Castro permitirá alguma abertura econômica, facilidades para a pequena empresa, licenças e esses tréguas mínimas que lhe tornariam a vida mais fácil. Ri-se, porém seus olhos parecem chorar – Estou velha menina, por mim dá no mesmo, cansei de esperar.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Cidade desconhecida


De tanto olhar pela mesma janela, ver a mesma rua, falar com as mesmas pessoas e viver na mesma cidade, termina-se por pensar que se conhece todas. Se me houvessem contado eu não teria acreditado, agora como sei que é verdade estou cheia de questionamentos. As ruas de Havana guardam ainda muitas surpresas para mim, por sorte.

Agosto letal. Chego ofegante na 23 com 12 e encontro dispersos pelo chão vários panfletos como o da foto: FREE IRAN. Que é isto minha mãe? Pego um e olho ao redor, diria que eu sou a menos surpresa dos que me rodeiam. Um tipo com aspecto de segurança flagrado em falta mete uma no bolso e faz um gesto de asco com assombro. Creio que não gostou. Não poderia dizer se FREE IRAN se qualifica como “Propaganda inimiga”, porém evidentemente “Propaganda amiga” não é.

Na G com 23 há mais. Muitas mais. A maioria foi pisoteada. Quem teve esta idéia tão genial? Já não tenho dúvidas, isto está relacionado com as idéias fixas que fustigam a mente alucinada de Fidel Castro. Como ficaria o companheiro Fidel se ao invés da terceira guerra mundial a ditadura iraniana chegasse ao fim?

Primeiro número da revista Vozes (Voces), em pdf.


AQUI

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Ganhar a vida


Foto: Claudio Fuentes Madan

Chegou na G Na sexta-feira chegou na G para se confundir com o resto da juventude que vê suas madrugadas passarem esperando tempos melhores. Por alguma razão inexplicável a polícia somente permitia “estar” numa das calçadas da 23 - só Deus sabe o porque - e como tinha um encontro com uma garota na “zona proibida”, decidiu correr o risco cinco minutos antes do que perder sua oportunidade noturna.

O risco foi maior do que o calculado – ingênua e louca juventude -: um oficial lhe deu as boas vindas com um empurrão e lhe pediu a carteira de identidade. Nem bem a tinha pegado, o algemaram e antes que perguntasse “Por quê?” já estava no camburão.

Enfiaram-lhe num calabouço na 21 com C. Pensou que tinham esquecido de lhe soltarem as mãos. Contudo, uma olhada ao redor lhe permitiu comprovar duas coisas:

-Todos os detidos estavam algemados.
-Havia muitos detidos.

Como não tem nem vinte anos estava aterrorizado. Não conhece nada dos seus direitos e tampouco iria arriscar a noite para defendê-los. Igualmente sempre há uma terceira opção. Tratou de sussurrar as palavras mágicas para um uniformizado:

Compadre, o que tenho são cinqüenta pesos. Minha mãe está doente e não posso chegar muito tarde em casa.

Meia hora depois estava na sua casa. Resumiu-me a história com a moral da mesma:

-Fizeram uma tremenda trapaça na sexta-feira, éramos um monte de gente. Na próxima lhes dou o dinheiro dentro do camburão.

domingo, 29 de agosto de 2010

Impensável


Foto: Reina Luisa Tamayo e sua filha, por Claudio Fuentes Madan
Existem coisas que descartei no baú do “incompreensível”. Diria que renunciei, venceram-me, não agüentei, superaram-me. Nego-me a gastar meu cérebro um instante a mais tratando de encontrar alguma lógica, alguma, ao menos um mínimo sentido. Em sua maioria – confesso que são várias, demasiadas – ressaltam o regresso de Fidel Castro, as “medidas” de Raúl Castro, os signatários das cartas abertas da UNEAC, a sessão extraordinária da Assembléia Nacional, a fofoca com Elián González, a mente de Randy Alonso, os mortos de Mazorra, a permissão de saída, a utilidade “ideológica” da Mesa Redonda, a ética do médico de Orlando Zapata Tamayo, a vergonha dos que usam o uniforme verde-oliva hoje ou a moral dos militantes do Partido. A lista, juro-lhes, pode se tornar extremamente longa.
Contudo, existem outros tipos de eventos rebeldes para serem postos no saco, tampouco os entendo – inclusive os entendo menos -, porém não posso deixar, vez por outra, de voltar à eles, de analisá-los, desmembrá-los. Obsessionam-me, tiram o meu sono. Sinto que não deveriam ser, ou melhor, que Não podem ser. Minha racionalidade me diz que são impossíveis, meu cérebro grita desesperado que não existem pessoas que se prestem para espancar e impedir uma mãe de ir ao cemitério colocar flores ou render homenagem ao seu filho morto.
Ponho-me científica, quero analisar como num reality show: eu quero saber o que fazem cada um dos repressores (atores e diretores) de Reina Luisa Tamayo quando chegam em suas casas. Põem a panela de feijões? Abrem as janelas quando a tarde cai? Abraçam e beijam seus filhos antes de dormir? Dormem com sonho inocente ou os pesadelos atormentam suas madrugadas? Riem as gargalhadas? Olham-se no espelho, o que vêem? Gostam da chuva? Conversam com os seus vizinhos? Não consigo evitá-lo, minha mente faz seus cálculos e descobre que é irreal: ou melhor, não respiram oxigênio ou talvez não sejam mamíferos, sentencia. Então eu protesto: Não, já te disse, são humanos, humanos como os demais! Porém a outra eu, imparcial, não se deixa comover: têm que ser de outra espécie, têm que ser de outra espécie, têm que ser de outra espécie.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O tunel


Da saga El Ciro versus La Seguridad del Estado


Sempre na salvaguarda da liberdade de expressão e da arte alternativa parti em missão operativa para Playa Jibacoa, para assegurar a atividade e repelir nossos amigos canalhas do MININT.

Que montão de gente e quanta subversão meu deus! Os seguranças não perderiam isto de modo algum, algo andariam tramando, porém....onde? Ativei o rastreador GPS para detectar algum segurança que eu houvese marcado com uma flecha anteriormente. O rastreador começou a me enviar sinais do subsolo. Caramba, caramba, o que faziam lá por baixo? Enquanto desempacotava a excavadora unipessoal* me dispus a investigar as profundezas.

Desce, desce e desce...surpresa!, um tunel! Haviam cavado um tunel que parecia se dirigir até a cena principal. Novamente me fiz transparente e avancei. Como sempre uma luz no final, qual seria a minha surpresa ao encontrar Fernando Rojas (viceministro da cultura) sobre um montão de caixas de dinamite e vários oficiais de alto escalão da segurança do estado brindando o fim da arte cubana. Nada, quando começasse o concerto e aquilo se enchesse iam acender a mecha e fariam desaparecer os artistas e todo o público ali presente, subvertido, além disso.

-Bonito hein? - disse enquanto me materializava. De repente o medo deu um nó nas gargantas e lágrimas afloraram nos olhos dos oficiais, retratando a lembrança de tantas batalhas perdidas e pesares por mim inflingidos em suas almas por mim. Porém o viceministro, que não me conhecia, acovardou-se:

-Hei, tu, fora daqui! Isto é uma operação encoberta - ousou me dizer.

-O resto que se retire por favor, tenho um assunto a tratar com este camarada.

Os seguranças partiram a toda velocidade.

O Festival foi excelente. Escuadrón Patriota provocou orgasmos, Los Aldeanos gastaram as cordas vocais de todos os que cantavam em coro suas canções e tudo parecia uma imensa igreja protestante da Carolina do Sul, só que multicor e na qual se pregava a liberdade. Por certo não creio que vejam Fernando Rojas durante alguns meses, é que tinha muita dinamite e come-la não iria ser nada fácil.

Até uma próxima aventura,

El Ciro

*Excavadora unipessoal: dispositivo para cavar e se mover sob a terra. Desenvolvido por El Ciro nos anos 80. Foi utilizado no filme norte-coreano "O flautista contra os ninjas", na cena da praia.

sábado, 7 de agosto de 2010

Mãe, o que o bem?


Com uma corda grossa e um pedaço de madeira tres meninos preparavam o cepo de tortura para uma lagartixa. Um deles segurava a vítima, que com os olhos muito abertos e o corpo rígido, esperava seu martírio sem muitas esperanças de sobreviver. Nesse momento eu passei e intervi, como é lógico, em defesa do pobre animal: dei uma explicação sobre cuidar dos seres vivos e agarrei o bicho com as mãos. Muito feliz pela minha boa ação busquei uma árvore adequada para o seu bem estar e o soltei entre as ramas. Até esse momento tudo foi bem típico, os meninos fazem experiências com pássaros e pequenos animais e os adultos tratam de educá-los no amor à natureza.

O inusitado veio vinte minutos mais tarde quando a mãe de um dos meninos bateu na porta para exigir explicações. Decidi, então, expor à essa mulher os mesmos argumentos que havia dado ao seu filho, e aparentemente me entendeu, pois não disse uma palavra, agarrou o menino pelos cabelos e o levou. Senti-me um pouco culpada, nunca esperei tamanho castigo por uma lagartixa, porém intervir mais uma vez nas questões morais desta família haveria sido excessivo.

O incidente me intrigou, não porque os rapazes brincaram de martirizar um réptil, mas sim porque eram tão inconscientes da sua má ação que acharam "correto" buscar o apoio dos seus pais. Quando eu era pequena os meninos do meu bairro matavam pardais às escondidas, eles sabiam que aquilo era mal. O que aconteceu quinze anos depois para que essa noção simples do bem e do mal haja desaparecido?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Um dia em Santa Clara


Foto: Claudio Fuentes Madan

Há outra Cuba junto ao asfalto, anônima, dinâmica, falante e negociante. Tres horas num táxi privado pela rodovia de Havana até Santa Clara pode trazer mais informação do que todo um ano vendo o noticário nacional de televisão: preços no mercado negro, opiniões privadas de ex-militantes do partido que devolveram suas carteiras, turistas cubano-americanos contando suas anedotas e vendedores ambulantes. Poderia ficar nesta outra ilha mais quente e mais real, mais dura porém mais sincera que a da televisão cubana.

Santa Clara, contudo, parece sitiada e não uma cidade em festas carnavalescas. Como um diabólico natal sem cores, em cada porta, muro e janela está o mesmo cartaz com a mesma inscrição: Estamos em 26. A cidade se fundiu num número, num mesmo número, até o infinito da província. Alguém pode ter a sensação de haver chegado ao país das cifras, ao domínio do "Rey 26". Com menos sol e mais ar poderia ser o começo de um excelente filme de terror.

Coco seria uma Alicia no país da Rainha Vermelha, sua porta é a única livre da maldição do dois mais seis, e a cada instante nosso diálogo se interrompe porque alguém chega na sala para lhe desejar sorte, saúde e bem estar. Alicia, sua mãe, desespera-se ante a azáfama solidária que interrompe o repouso e a disciplina à qual seu filho deveria estar submetido. Todavia Fariñas é um ser excepcional: seu corpo é um sulco de marcas e cicatrizes, púrpura e buracos, o trombo marca seu pescoço e seus pés inchados retém muito líquido. Não caminha, porém quando fala da cadeira de rodas é como se voasse. Senti dor por esse corpo impotente para acompanhar os passos de uma alma tão grande.

Sair de sua casa é quase deixar o paraíso, sem transição entre levitar com suas palavras durante horas para logo cair num charco de asfalto em meio ao terminal provincial: uma televisão de 15 polegadas em mute que invariavelmente apresenta um close up de Raúl Castro, cartazes e bandeiras com o maldito 26 abarcando todo a extensão de alcance do olhar (chega um momento em que tudo se torna abstrato e se esquece que esse número é uma data, só uma data) e uma temperatura impossivel para a vida humana que obriga a sentar no chão para se poder respirar. Quatro horas depois conseguimos pegar um transporte para La Habana.

sábado, 31 de julho de 2010

Dever


Chego na casa de uma amiga e a encontro rindo as gargalhadas diante da dever do seu filho. Dá-me uma folha da caderneta e me convida à ler, não sem antes esclarecer:
-É muito sincero, vê-se que só tem sete anos.

"Minha escola"
"Toda minha escola é bonita menos o banheiro, porque está bem pintada e não tem nada quebrado, em troca o banheiro está mal pintado, sempre há côcô e tem cheiro de urina. Na minha escola há muitos bons e engraçados amigos, também a professora é muito boa e bastante engraçada. No matutino a diretora diz muitas coisas porém as vezes não ouço. Eu quase sempre quero sair da escola e muito mais quando vou comer nela, hoje comi farinha e a professora me obrigou."


A verdade é que não rí tanto, lembrei-me de quando eu tinha essa idade e do que aconteceu depois. Não comentei nada com a minha amiga, porém se nosso país não mudar, dentro de tres ou quatro anos as composições dos seus meninos longe de criticarem o cheiro ou lembrar a alegria de brincar com seus companheiros, mencionarão heróis mortos nas guerras de séculos passados e batalhas de idéias desconhecidas.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Ceia de estranhos


Foto: Claudio Fuentes Madan

A família cubana está destruida, não só pelas separações territoriais produzidas pelas emigrações, como também pelas contradições políticas entre cada membro dentro do país. Outro dia fui convidada para comer na casa de uma amiga e terminei a reunião deprimida pelo choque de duas gerações, pais e filhos: uma que cala por respeito aos mais velhos e outra que ofende por sua ideologia absolutista.

Enquanto "A mesa redonda" animava o aniversário da minha amiga (o tio não teve sensibilidade suficiente para desligar a televisão), a mãe fazia comentários terroristas sobre o destino dos Estados Unidos, e os conjuges de ambos tentavam, como crianças, mudar o tema - não sei se por solidariedade com os mais jovens ou por simples sentido comum: era uma festa. Minha amiga tinha duas opções:
-Dar sua opinião e converter a celebração num funeral de gritos e intolerância.
-Calar a boca e dedicar-se às batatas fritas.

Optou pela segunda. Sua família não pareceu se dar conta do silêncio anormal da homenageada durante toda a noite. Entre as trocas de idéias: "O socialismo é o único caminho", "todos esses mercenários deveriam apodrecer no cárcere", "Não sei como Obama pode dormir tranquilo", "a União Européia e o Império um dia vão pagar", "Fidel sempre teve razão"; passavam de mão em mão as planilhas e os documentos que apresentariam na manhã seguinte no Consulado Espanhol para solicitar a cidadania desse país europeu, e as mulheres comentavam a novela mexicana da televisão a cabo que têm em casa ilegalmente.

Todo o tempo um sentimento de profunda lástima me constrangeu com esses estranhos militantes do PCC: com uma moral tão desavergonhada, uma ideologia ambígua e uma intransigência sem limites. Sua cegueira os impede de observar o enorme abismo que os separa da geração à que deram vida: estão sós, tão sós que nem sequer seus filhos se atrevem a iluminar-lhes o caminho.

terça-feira, 27 de julho de 2010

"Somos a raiz da mudança", por Raudel do Escuadrón Patriota

Fiz este vídeo ontem num concerto organizado pelo grupo OMNI-Zona Franca na casa Gaia. Havia pouca luz e o áudio está ruim, porém a canção de Raudel brilha acima de qualquer inconveniente tecnológico.

Transcrevi o que consegui entender, qualquer ajuda de um leitor com melhor ouvido do que eu é benvindo:



“Somos la Raíz del cambio”

Diez meses después tengo que recordar mi posición, teniendo en cuenta que queremos lo mejor para todos y asegurar una vida con tolerancia, equilibrio y armonía para todas las personas de la nación y la diáspora, pero también con mucho progreso, equilibrio y evolución espiritual, porque hay muchos sueños y mucha fe.

Escuadrón manifiesta:
Afro-descendiente soy y Cuba es mi nación,
No somos peligro para nadie, presten atención:
No queremos violencia ni una confrontación,
Insisten en que nuestro mensaje es contrarrevolución,
Esto se llama realidad y compromiso con la nación,
El amor vence al miedo, la palabra a (inaudible)
Recordemos a la mente la voz, no la resignación:
Revolución es cambio, es progreso y es transformación,
No esconderán las esperanzas de millones sin razón.
Conspiración contra Escuadrón ¿por qué? Por mi visión
Quien la sabe conoce la peor cara de esta nación
Ni burguesía, ni familia en el Yuma, ni buena posición
Vivo en el corazón donde la gente sufre y se traga el dolor
No le canto a la política, error,
Yo tengo conciencia crítica y esta es mi proyección
Y claro que me preocupo, vivo en el centro del ciclón,
Las demandas del país son tantas sin tanta investigación:
Desigualdad, carencia, poca alimentación,
hacinamiento, incomunicación, represión,
generación desorientada, fatalidad, separación,
racismo, destrucción y una lista sin definición.
Pero nos siguen viendo como una provocación
¿Quién justifica que los albergues minen en la nación?
Somos la sangre que brota de la herida abierta de la revolución
La bandera de los soldados (inaudible)


Que lo mantengan en la luz que esto se está revelando,
Vamos ¡Somos la raíz del cambio!
Mucho tiempo pensando y sin actuar,
¿Qué estamos esperando? ¡Somos la raíz del cambio!
No pueden con nosotros: la verdad está en el pueblo,
Ellos lo saben ¡Somos la raíz del cambio!
Pa’los niños y los ancianos, pa’los negros y pa’los blancos:
¡Somos la raíz del cambio!


No miento cuando digo que esto se fue de control
Por cierto (inaudible)
Por la seguridad en acción
La orientación de lo que no es convoca la detención
Y en cada presentación hay respeto y reconciliación
Yo sé que cuesta muchísimo trabajo despertar
(inaudible) igual yo fui víctima fatal
Cierta información parcial, la ignorancia estatal,
El aislamiento es letal yo lo puedo demostrar
Soy incapaz de promover el odio, de manipular a nadie
Ni de lanzar el más (inaudible) testimonio
Tengo familia, amigos (inaudible)
Yo apuesto por un cambio para la prosperidad, es obvio
Porque lo que piensa la mayoría de la gente
Lo que quiere la mayoría de la gente
Lo que piensa la mayoría de este pueblo yo lo sé
¡No tengo miedo lo que suceda!
(Inaudible)
Toman espacio en cada esquina de mi casa para
Decirles a todos que Escuadrón es una amenaza
Deténgalos que están siendo la imagen que.. (inaudible)
Y el silencio en los labios (inaudible) minan el alma
La verdad puede que tenga relatividad
Pero no lo creemos: Nosotros somos la realidad
El amanecer de un nuevo día vendrá entre (inaudible) y música
Es de una nación cansada (inaudible)
Después de una declaración que se acusó contra el cielo
Me quedo en silencio y le pido al supremo
Que por cada lágrima derramada
(inaudible)


Que lo mantengan en la luz que esto se está revelando,
¡Somos la raíz del cambio!
Mucho tiempo pensando y sin actuar,
¿Qué estamos esperando? ¡Somos la raíz del cambio!
No pueden con nosotros: la verdad está en el pueblo,
Ellos lo saben ¡Somos la raíz del cambio!
Pa’los niños y los ancianos, pa’los negros y pa’los blancos:
¡Somos la raíz del cambio!
Cada hijo de cada barrio en cada pueblo
Con un puño en alto ¡Somos la raíz del cambio!
Mucho tiempo pensando sin actuar
¿Qué estamos esperando? ¡Somos la raíz del cambio!
No pueden con nosotros la verdad está en el pueblo,
Ellos lo saben ¡Somos la raíz del cambio!
Pa’los niños y los ancianos, pa’los negros y pa’los blancos:
¡Somos la raíz del cambio!

(Inaudible)…Hasta mi nación Cuba: Amor, paz y fe. Amor, paz y fe en nombre del más alto de la creación, somos todos la raíz del cambio. Todos amamos esta nación. Todos la amamos y libertad queremos para tener armonía, progreso espiritual, económico y social para nuestra isla. Todos tenemos responsabilidad y somos la raíz del cambio.
Gracias.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

"Meu marido vale a pena" entrevista telefônica com Suyoani Tapia Mayola (II)

Segunda Parte: Prisão Kilo 5 e Meio, em Pinar del Río

Quando decidistes seguir o destino de Horacio e mudar-te de Ciego de Ávila para Pinar del Río?

Sendo médica, dificilmente me autorizariam a continuar indo às visitas depois do translado de Horacio Tinhamos intenções de que a relação funcionasse e eu tive que me mudar para cá. Além disso não podia manter o rítmo de viagens desde Ciego de Ávila. Estou há quatro anos vivendo sem ninguém aqui em Pinar del Río, só a família dele e as amizades que venho fazendo desde que cheguei. As famílias de outros presos me apoiaram, na casa da família de Víctor Rolando Arroyo, por exemplo, era onde ficava quando as visitas vinham.
Foi duro me separar da minha família, eu nunca sonhei em viver em Pinar del Río e olha, aqui estou. Minha sogra morreu logo, foi um duro golpe para Horacio e para mim. Ela me ajudava em tudo, faleceu em 2 de março de 2008, de câncer.
Fiquei muito sozinha, porém meses mais tarde Deus me deu a sorte de ficar grávida e hoje temos uma menina de um ano e tres meses, pusemos-lhe o nome da mãe de Horacio: Ada Maria, é a Damazinha de Branco mais jovem.
Apesar de tudo eu creio que somos felizes, apesar de estarmos separados temos muitas coisas: uma família sobre uma base sólida. As pessoas me dizem que minha história parece uma telenovela, minha mãe acredita que na vida real isto não se vê muito. Nós, Horacio e eu, sempre temos tido muita fé, as vezes - minha mãe também me disse - sinto que é como uma missão, que só Deus sabe porque faz as coisas.
Não posso te dizer que seja completamente feliz, tenho ele na prisão e é muito duro: estamos todos presos, assim não temos vida. Eu levo minha menina à todas as visitas, brincam durante duas horas e ao separar-me dele, chora. Para nós como pais também é muito dificil, ele perdeu muitas coisas: seu primeiros passos, suas primeiras palavras. Horacio nos tem feito muita falta, como tantos que têm feito falta à seus filhos e suas esposas. Esperamos que tudo se solucione e que possamos viver como uma família, como a verdadeira família que somos.

Continuas exercendo a medicina em Pinar del Río?

Terminei meu serviço social e continuei trabalhando aqui, a mudança foi dificil, no início não queriam me dar um lugar. Minha carreira é eminentemente prática e sempre quis trabalhar. A segurança certificou-se que meu posto aqui em Pinar del Río fosse um lugar bem retirado, não havia nem rodovia, tinha-se que chegar numa carroça a cavalos e alí me tiveram por seis ou oito meses. Quando estava grávida tinha que viajar carreta com a minha barriga para ir e vir, todos os dias, do trabalho. Com o tempo me aproximaram um pouco do povoado e depois do município, porém com tudo isso estou longe. Como trabalhadora eu pertenço ao município de Sandino, a trinta kilômetros de onde vive a famíla de Horacio. Eles me deram trabalho, porém nunca me facilitaram as coisas. Um amigo médico me disse quando eu cheguei: Estás preparada para o que vais viver? Eu estou convencido de que tu nem imaginas as coisas pelas quais vais passar. E é certo, tenho passado por coisas muito dificeis, ainda pior quando fiquei grávida, com uma barriga imensa de seis, sete meses, só numa prisão, chegava com tres ou quatro malas e os oficiais ponderavam para começar a me tirar coisas. Estas histórias temos vivido todos os familiares dos prisioneiros, porém olho minha história em particular e o que nos têm feito, e há crueldade.

Tens algum momento especial que queiras me contar, algo que os haja marcado como casal?

Temos tido momentos muito duros, porém também muito lindos em nossa relação. Não nego que as vezes nós temos sucumbido - como todo mundo - porém sempre temos podido nos levantar e a prova é esta: hoje estamos juntos, ao fim de quase sete anos de relação e mais unidos do que nunca, de verdade.
Há uma história que nos marca - e é até graciosa - as vezes uma pessoa de fora a escuta e lhe parece normal, porém para nós tem muita significação: uma vez eu estava numa consulta e ele me chamou para que o atendesse. Pensei que se sentia mal, preocupei-me porque acreditei que era grave. Aconteceu que eu estava examinando os presos - o médico na prisão, geralmente, entra e faz a consulta na cela mesmo - e o guarda se esqueceu de mim, deixou-me só com os presos. Eu vía que Horacio me chamava e chamava, de repente parou ao meu lado e me abraçou como querendo dizer: que niguém a toque. Quando me dei conta do que se passava me assustei. Depois nos rimos e eu lhe perguntava: O que tu ias fazer? O que lhe atinou foi me abraçar diante todo mundo!

Quando se casaram?

Nos casamos em 21 de março de 2007, o casamento foi na prisão, uma coisa muito simples: levamos um tabelião, assinamos. Talvez um dia possamos celebrar melhor nossa união, com nossa família. Horacio tem tres filhas, a maior tem 22 anos e é muito apegada a nós, tinha 16 anos quando seu pai foi condenado.
Talvez nós tenhamos conseguido coisas que outros casais, com vida em comum, não tenham conseguido, atreveria-me a assegurar que existem casamentos na rua, vistos diáriamente, e que não têm o que nós temos. Não é um ato heróico meu: Horacio vale todo esse sacrifício que eu tenho feito, ele me inspira à tudo isto.

O que achas das negociações levadas a cabo nestes momentos entre o governo e a Igreja Católica?

É muito dificil ter uma filha única, ver como essa menina caminha, fala e cresce sem poder ver seu pai, ver como fica chorando cada vez que se despedem. É muito duro também vê-lo dar as costas e saber que fica encerrado atrás de uma grade, não saber se vai comer, se vai estar bem. Então, sempre e quando não vá contra nossos princípios, eu agradeço infinitamente tudo o que se faça a favor de sua liberdade e da de todos os presos. Há um mes não havia luz na minha vida, vivia por viver e hoje tenho a esperança de poder formar uma família, de dar à minha filha um lar estável. O lugar do seu pai é insubstituível, nem os avós nem ninguém pode ocupar, então a possibilidade de vivermos juntos, de ter uma vida normal, como Deus manda, é algo que tenho que agradecer.

(Fim da entrevista)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

"Meu marido vale a pena" entrevista telefônica com Suyoani Tapia Mayola (I)


Por acaso me inteirei da história desta médica de vinte e nove anos e seu marido, Horacio Piña Borrego, de 42, jornalista independente preso durante a causa dos 75. Enquanto me contavam a odisséia do seu destino me pareceu que estava lendo um capítulo de "Cumbres Borrascosas". Essas coisas não acontecem na vida real, pensei, e se acontece, eu tenho que falar com esta mulher, eu tenho que contar isso.

Um amigo comum nos pôs em contato e decidi chamá-la para que me desse seu testemunho. As palavras de Suyoani me calaram na alma e ainda dizem que por telefone tudo é mais frio, quando ela chorou eu também chorei do outro lado do auricular. Não pensei em publicar uma entrevista mas sim contar sua história; contudo, depois de gravá-la, alterar com as minhas palavras a vida desta garota me pareceu um sacrilégio.

Primeira Parte: Prisão de Canaleta, Ciego de Ávila

Como conheceste Horacio na prisão de Canaleta?

Nos vimos pela primeira vez numa cela de castigo. Foi chocante para mim já que eu não era médica da zona de isolamento, estava de plantão e haviam me chamado por que Horacio sentia-se mal.
Quando entrei no corredor a única coisa que havia era uma lâmpada incandescente, alí não entra a luz do sol porque as janelas estão fechadas com pedaços de zinco. Era um espaço imenso, não posso te dizer que tamanho tinha - é incomparável - haviam muitas celas pequenas, extremamente pequenas. E alí estavam cinco da causa dos 75: Raúl Rivero, Ariel Sigler Amaya, Luis Milán Fernández, Pedro Pablo Álvarez e meu marido, Horacio Piña.
Lembro que Horacio tinha dor de cabeça e pressão alta. Quando o vi através daquela grade foi extraordinário, desde esse momento os dois nos demos conta de que algo iria acontecer. Então nunca pensei que acabaríamos casando, que em algum momento até teríamos uma filha. Todavia foi mágico, eu tenho muita fé nesses acontecimentos, conhecer uma pessoa, enamorarmo-nos alí e logo formalizar um casamento e uma família, realmente tem que ser obra de Deus.

Por que os cinco estavam em celas de castigo?

Não havia razão para isso, foi a localização que as autoridades buscaram. É a cela de castigo para os presos comuns, porém tmabém é zona de isolamento. Qaundo eles foram presos os colocaram alí com os condenados à morte e à penas perpétuas. Horacio ficou alí um ano e quatro meses.

Quando se deram conta que estavam namorando?

No princípio éramos só amigos, mesmo que sempre tenha havido muita identificação. Em treze de maio de 2004 nós demos o primeiro beijo - quase um ano depois de nos conhecermos - porque como ele estava na zona de isolamento não nos víamos tão frequentemente, só uma ou duas vezes ao mes. Na prisão a relação dos presos com os oficiais e com os médicos é muito dificil, falaram muito al deles comigo. Meu marido me conta que muitas vezes quis puxar conversa, porém sentia medo de me decepcionar ou dizer algo errado, ainda mais em sua situação. Eu também tinha o intuito de lhe falar, porém tinha medo do mesmo modo.
Passou muito tempo antes que converssássemos, só quando o levaram ao destacamento com os outros prisioneiros nós começamos a nos ver praticamente todo dia e começamos a relação; eu atendia os pacientes crônicos e ele tinha várias doenças.
Nossa união foi, apesar de tanta diversidade, muito sólida: nunca falamos de algo passageiro, pelo contrário, sempre fizemos planos para o futuro. Tivemos muitas dificuldades porque existem coisas que não se pode dissimular: a segurança se deu conta que algo se passava, de que eu os ajudava, não só ele, mas também os demais. Começaram a nos vigiar, todavia nunca obtiveram provas palpáveis da nossa relação, se a imaginavam. Depois Raúl Rivero escreveu um poema relatando a nossa história, e a segurança a tomou. Horacio é maravilhoso, a pessoa que eu escolhi como modelo, apoio-me nele, dá-me forças para viver e continuar. Há gente que me diz: "Mas como é possivel? Tu és uma mulher jovem, tens uma vida pela frente. O que fazes unida à um homem condenado a vinte anos?" Eu simplesmente respondo: Meu marido vale a pena.

Quais foram as consequências de descobrirem tudo? O que aconteceu na tua vida pessoal e profissional?

Foram me buscar durante a consulta - eu estava justamente atendendo o Horacio - chegaram cinco oficiais da segurança e me levaram até um escritório, tudo aconteceu diante dele. Foi um momento terrivel, ele já sabia que algo se passava e disse aos oficiais: "Interroguem a mim, deixem-na!"

Pressionaram-me para que eu confessasse. Eu sou médica, era uma trabalhadora civil do MININT e fazia o serviço social, não éramos mais do que um homem e uma mulher, eles não podiam de me acusar de nada. Tentaram me intimidar usando a minha família, ameaçavam-me: diziam-me que iam contar para os meus pais. Um oficial me perguntou numa entrevista como era possivel que uma médica graduada da revolução se enamorasse de um terrorista. Nessa ocasião respondi: parece que você e eu não temos o mesmo conceito de terrorista, Horacio Piña não é terrorista.
Transferiram-me para outra unidade do MININT e ele foi mandado então para Pinar del Río. A última. A última entrevista em Canaleta foi em 18 de julho. Horacio foi mandado na madrugada de 11 de agosto para o Combinado del Este e posteriormente para Pinar del Río. Ou seja, ele só ficou mais uns dias em Ciego de Ávila depois que eu fui enviada para uma unidade de escritórios, nada relacionado com prisões. Eles diziam que não queriam perder uma médica, então, fiz uma permuta de lugar de trabalho: uma médica de uma escola estava interessada em mudar de trabalho, ela se incorporou ao MININT e eu fui para a escola.

Então não te permitiram continuar trabalhando em prisões?

Não, eles sabiam que eu tendo uma relação com ele iria ajudá-lo. Eles não querem, nem sequer podem imaginar que exista alguém que possa facilitar as coisas. Tive momentos de muita pressão, houve um dia em que eu estava esperando um ônibus para ir ao trabalho e na parada uma senhora dizia à outra: Há uma médica com um terrorista aqui na prisão de Canaleta.
Eles se encarregaram de divulgar esse alerta de "Médica com Terrorista" na minha província. Também foi muito dificil para minha família, meus pais foram citados pelo centro de trabalho. Foram momentos muito duros para todos, inclusive para ele, porque sentia-se impotente enquanto eu sofria toda aquela situação.

E tua família? Como reagiu ante tanta pressão?

Eu tenho uma família maravilhosa...me é dificil falar desse tema. No caso do meu pai, porque minha mãe é uma pessoa um pouco mais calada, disse-me: -Se nós não te ajudamos então quem o vai fazer? Tu és minha filha -. Recordar isso me dói.
No dia que a segurança me interrogou também interrogaram meu pai. Na manhã seguinte eu saía para o trabalho e me perguntou se necessitava que me acompanhasse:

-Papi, eu posso ir só - e me disse.
Então levanta a cabeça, não fizeste nada para que vás com a cabeça baixa.

Isso vou lhe agradecer sempre, na verdade tenho muito que agradecer aos dois porque ambos trabalham e estão relacionados de um forma ou outra com este governo, com o sistema. Outra família talvez não houvesse adotado essa posição. Os oficiais, inclusive, perguntaram ao meu pai por que eu continuava vivendo sob seu teto e ele alegou: -Não irá de casa de maneira alguma, é minha filha e vou ajudá-la em tudo. Assim o fez sempre, são sete anos já, praticamente, e aqui estou em Pinar del Río. Apesar de estarem longe eles tem me ajudado muitissimo.

E as pessoas, que atitude assumiram ante a difamação? Teus companheiros de trabalho, teus amigos?

Temos recebido o apoio de muitas pessoas, Horacio é muito sociável e fácil de se gostar. As enfermeiras nos ajudaram muito e ele, inclusive, mantém comunicação com pessoas em Canaleta. Eu lhe dizia naquela época: Tu tens olhos nas costas - e ele se justificava - As amizades me alertam dos perigos, me dão sinais quando alguém prejudicial para nós está perto.
A segurança do estado não conseguiu tirar a solidariedade das pessoas, essa é a espinha que eles têm cravada na garganta e por isso não me deixam viver em paz. Sempre fui perseguida, não tenho tido um momento de tranquilidade. Aqui em Pinar del Río, por exemplo, quando começo a trabalhar num lugar sempre acontece o mesmo, a princípio ninguém diz nada porém depois quando nos conhecemos confessam: Doutora eu tenho que lhe dizer uma coisa, antes de você chegar a segurança esteve aqui e nos disse que tínhamos que informar tudo o que você fazia, a hora de chegada e a hora de saída.
Chamaram meus pais e os pressionaram para que me peçam que volte, dizem-lhes que vão me dar trabalho, que vão me colocar na capital da província, que nào vai me acontecer nada...até a isto se atreveram.

(Fim da primeira parte da entrevista)

terça-feira, 20 de julho de 2010

O regresso


Imagem: El Guamá

Não sei por que nem para que, não me interessam as razões obscuras nem as teorias que rodeiam sua aparição. Não penso, nem por um instante, em tratar de arrazoar o regresso de Fidel Castro às câmeras. Existem coisas na vida que só são para se deleitar, e esta é uma delas.

O ocaso dos ditadores é algo dificil de desfrutar em sua totalidade, desde seu retiro em 2006 pressentí que perderia uma boa parte do final senil da "Revolução Cubana". Equivoquei-me e me regozijo pelo meu êrro.

Havia me conformado com as reflexões, pareciam cada vez mais contos curtos de ficção científica de revistas de 5 centavos do que outra coisa, são boas para rir, porém infinitamente inferiores a suas versões gráficas - não foi por outro motivo que a televisão arrasou com o mercado no século vinte.

Não é a mesma coisa ler isto:

"A economia da superpotência cairá como um castelo de cartas. A sociedade norte-americana é a menos preparada para suportar uma catástrofe como a que o império criou no próprio território de onde se iniciou.
Ignoramos quais serão os efeitos ambientais das armas nucleares que explodirão, inevitavelmente, em várias partes de nosso planeta, e que na melhor hipótese irão accontecer em larga escala. Aventurar hipóteses seria pura ficção da minha parte".

Do que escutar e ver isto:



Senhores, sem tristezas nem desesperanças, este milagre da comédia nacional tem que ser comemorado, existe a possibilidade de que seja a última vez que o veremos tecer considerações.

sábado, 17 de julho de 2010

Tristes Rodovias


Foto: Claudio Fuentes Madan

Mulher prática que sou, pensei em aproveitar minha viagem à Santa Clara para comprar na rodovia os produtos que na Capital custa muito para se conseguir ou têm um preço muito alto. Desde pequena recordo os camponeses vendendo na beira do caminho, eles mesmos semeiam ou criam, comerciando as mercadorias diretamente com os viajantes.

Surpreendeu-me a falta de vendedores ambulantes por kilômetros e kilômetros, esses camponeses têm uma economia muito precária e custa acreditar que a polícia se dedique a castigá-los por negociarem aquilo que brota das suas próprias mãos. Em casas de madeira e com suas vaquinhas recenseadas, com a venda de umas libras de queijo conseguem alimentar suas famílias por alguns dias.

Ainda restam alguns, dificilmente somam uma vintena ao longo dos kilômetros que separam Havana de Santa Clara. Temerosos, quando o carro para, acercam-se com cautela, pois a PNR os caça fazendo-se passar por cliente.

O rapaz com quem finalmente pude comprar queijo não chegava aos 25 anos, com certeza. Perguntei-lhe o que acontecia quando os pegavam: eles fogem a toda velocidade, tratam de salvar ao menos alguma mercadoria, e os policiais correm atrás deles floresta adentro.

-Correm atrás floresta adentro?

Dá trabalho levar a sério a imagem ridícula de um uniformizado correndo atrás de um campones pelo matagal, para confiscar-lhe vinte bananas. Como não ia fazer uma dissertação para o pobre rapaz, simplesmente lhe paguei e fui-me, porém a ideia me dá voltas na cabeça: Não há um milhão de pessoas improdutivas ganhando salários segundo o general Raúl Castro? Por que não começam a desmobilizar estes empregos predadores da economia familiar e permitem que os camponeses vendam seus produtos onde queiram?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Quem não entende nada sou eu


"Não creias, não temas, não supliques"
Alexander Solzhenitsyn

Os últimos dias têm sido vertiginosos, marcados pela alegria e a incerteza. Não me despedi de Pablo Pacheco porque o tiraram do país as escondidas, não consegui falar com Pedro Argüelles e ainda tenho gravada nos meus olhos a imagem de Fariñas, congelada no instante em que uma careta no seu rosto provava que, para ele, um gole de líquido é A Dor.

Estive um pouco desconectada, correndo de um lado para o outro, de Pinar del Río até Santa Clara, inteirando-me de todos os acontecimentos graças ao fluxo de sms que alguns amigos têm conseguido nos manter. Ví muita gente com fé em que algum dia viveremos num país livre, fiquei impressionada pela rede solidária nas cercanias do hospital onde Coco está: uma vintena de amigos leais e seus companheiros, velam com fervor os altos e baixos de sua saúde, orientam os distraídos - como eu - que chegam tres horas antes da visita, oferecem tudo o que têm, e isso é quase nada. Lamentei sinceramente que nenhum jornalista tenha tido o trabalho até agora, de falar com essas pessoas que desde há quatro meses cuidam em silêncio da vida do homem mais livre de Cuba.

As vezes torna-se desestabilizador ver tanto arrojo e bondade em pessoas como a mãe de Fariñas e tanta indolência e hipocrisia em artigos como este. Há vezes em que é preferível não se conectar a Internet.

Aborrece-me muito, muitíssimo, sentir o escamoteio das vozes da sociedade civil em termos de uma política tão oportunista acerca do que vivemos hoje no meu país: a libertação dos inocentes. Em qual momento da história o diálogo foi entre a Igreja e o governo cubano, ficando Moratinos como mediador? Quando serão libertados os prisioneiros que querem viver em Cuba? Por que no aeroporto internacional os "livres" não entraram no avião como o resto dos passageiros? Se poderão entrar em Cuba quando quiserem, por que não lhes foi possível, agora, dizer adeus aos seus amigos nem tomarem um café em suas casas antes de sairem da ilha.

Hoje vi pela primeira vez o rosto de Paneque numa foto da Internet, meus sentimentos são inenarráveis, este texto torna-se-ia absurdo se me deixasse levar pelas minhas interrogações. Dói-me dizê-lo, porém até agora só uma palavra define o logro deste diálogo sui generis que exclui os protagonistas e vítimas de uma das partes: Desterro.

Quando ao menos um dos ex-prisioneiros de consciência libertados em Madrid colocar seus pés em Cuba de visita, quando Pedro Argüelles, Eduardo Díaz e Regis Iglesias estiverem em suas casas, quando os laicos Dagoberto Valdés e Osvaldo Payá sejam convidados às negociações entre o governo e a Igreja Católica, e possam opinar em igualdade de condições, então estaremos no Diálogo; até este momento só falamos de concessões, conveniências e saídas de emergência.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Juan Juan Almeida, hoje na 23 com L



Quer saber a que mais Hugo Pavón se dedica? Olha aqui

Resposta de Guillermo Fariñas Hernández ao jornal Granma



A jornalista Deisy Francis Mexidor intencionalmente destacou toda a equipe médica que atende Guillermo Fariñas Hernández, entre eles o Dr. Armando Caballero López - chefe de Cuidados Intensivos e Especialista em Segundo Grau; Dr. Elías Becker García - Especialista em Segundo Grau em Nutrição Parenteral; Dr. Luis Alberto Pérez Santos, Especialista em Segundo Grau em Terapia Intensiva; Dr. Mauro López Ortega, Especialista em Segundo Grau em Terapia Intensiva; Dr. Mario Rodríguez Domínguez, Especialista em Segundo Grau em Terapia Intensiva; Dr. Rodolfo Delgado Martínez; Dr. Israel Serra Machado; Dr. Ernesto Fernández Aspiolea, Especialista em Primeiro Grau em Terapia Intensiva; Dr. Marcos Castro Alonso, Especialista em Primeiro Grau em Terapia Intensiva; Dr. Yoniel Rivero Lóbrega, Residente do terceiro ano em Terapia Intensiva e Dr. Carlos Herrera Cartaya, o qual não integra a equipe médica por estar cumprindo missão na Venezuela e ao encontrar-se de visita em Cuba, assiste todos os dias pelas manhãs as discussões da equipe médica com respeito a evolução de Guillermo Fariñas, devido a experiência de anos atrás nas diferentes greves que o mesmo realizou.

O professor Armando Caballero cometeu um pequeno êrro porque não entrei com 53 kilos em 11 de março e em algumas ocasiões me levaram até 69,75 kilos. Todo isso foi graças ao nutrólogo Dr. Elias Becker, isto nos dá a certeza que Orlando Zapata Tamayo foi assasinado porque se tivesse recebido o atendimento médico que o jornal Granma relata que tenho recebido, nessas horas não seria um defunto.

Torna-se óbvio explicar o motivo do meu jejum e se propõe no diário que é um suicídio e não se exoplica aos leitores do mesmo que Guillermo Fariñas está em greve de fome desde 24 de fevereiro passado exigindo licenças extrapenais para 25 dos 26 presos políticos que se encontram nos cárceres de Cuba como presos de consciência e em delicado estado de saúde.

Considero que devido a gravidade do meu estado têm usado o humanitarismo dos médicos para irem preparando a mídia internaciona para meu falecimento futuro. Estou consciente do meu falecimento próximo e o considero uma honra pois trato de salvar a vida dos 25 presos políticos e de consciência de que a pátria necessita como líderes. Os únicos responsáveis pelo minha futura morte são os irmãos Fidel e Raúl Castro. Confio na equipem médica e paramédica que me atende. Por isso tenho rejeitado as diferentes ofertas feitas para que eu vá me tratar em outros países. Quero morrer na minha pátria ante os narizes dos ditadores que possuem as pistolas, fuzis, canhões e bombas. Só tenho a moral de ser do povo de baixo, enganado e submetido durante 51 anos pelos que possuem as armas, a violência e as leis totalitárias e que desgovernam desde cima.

Guillermo Fariñas Hernández

domingo, 4 de julho de 2010

Umas férias

Foto: Claudio Fuentes Madan

Estarei fora do ar por alguns dias, continuarei postando porém com menor frequencia. Preciso descansar um pouco, o corpo e a mente me pedem. Contudo não se preocupem, estou bem.

Água fria e dívida eterna


Amélia tem cerca de cinquenta anos e vive só, seu marido morreu em Angola e desde então recebe uma miséria de pensão através da Associação de Combatentes . Como não trabalha para o Estado e, contudo, ainda está em idade laborativa, por várias vezes trataram de lhe retirar os escassos 200 pesos que recebe como "ajuda econômica".

Desde que trocou sua geladeira a vida se complicou para ela: tem água fria, porém uma dívida com o Estado de 2000 pesos, uma trintena de pagamentos mensais mais os encargos por atraso que não pode liquidar. Desde há alguns meses recebe semanalmente um "inspetor" em sua casa que a informa que seu caso vai mal. Tudo começou com uma multa que ultrapassava sua própria dívida impagável. Como não funcionou, veio a chantagem de tirar-lhe a geladeira e por fim uma ameaça de ação judicial.

Amelia sabe que não poderá juntar essa soma, e seu inspetor, tornado confidente por força de ver-lhe pessoalmente, confessou-lhe que ele tampouco havia podido cumprir o seu compromisso de pagamento.

Num estranho "Ano da Revolução Energética", epíteto escrito sob a data em cada documento oficial e nos quadros-negros das escolas, Fidel Castro decidiu renovar os equipamentos eletrodomésticos de nossas casas. A energia nunca chegou, porém nossas lâmpadas, ventiladores e refrigeradores foram trocados sob permuta por novos, mediante compromisso de pagamento a prazo.

Alguns anos depois uma percentagem bem alta de cubanos deve milhares de pesos ao Estado, reuniões do PCC exortam os militantes à "velar pelo cumprimento dos compromissos em seus núcleos e em seus bairros" e de passagem também a "saldarem suas próprias dívidas para dar o exemplo". Porém, depois de 50 anos - seja militante do Partido ou não -, o denominador comum do cubano médio é a insolvência, e esta economia familiar quebrada é o resultado da má administração do governo, que agora exige que paguemos o que nunca ganhamos.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O limites do cinismo


Foto: Claudio Fuentes Madan

Uma das características do ser racional é reconhecer seus próprios limites e aqueles outros - que por razões lógicas - devem ser acatados para que a convivência funcione o mais harmônicamente possivel. Contudo, alguns setores da minha sociedade ultrapassam diariamente as fronteiras do cinismo humano, e a vanguarda deste movimento se localiza, sem dúvidas, no jornalismo oficial e seu insígne Noticário Nacional de Televisão.

Uma das últimas mudanças levadas a cabo por nosso presidente designado foi uma modificação na lei de aposentadoria: da noite para o dia - sem gritos, sem algazarra, sem protestos e sem ardentes sindicatos exigindo explicações - os cubanos fomos advertidos que nosso direito a aposentadoria passaria dos 60 anos à 65 para os homens e de 55 à 60 para as muheres. Assim, sem mais, a "massa operária" do paraíso socialista engoliu com amargura a pílula do abuso estatal e assumiu seus cinco anos extras de vida ativa laboral.

Porém para alguns nunca é suficiente a humilhação, ontem no NTV passaram uma pequena reportagem sobre as "dezenas de milhares de manifestantes" franceses que saíram às ruas para protestar contra a intenção do governo desse país de aplicar uma lei parecida a que, faz só uns meses, nos foi imposta.

A voz doce da repórter amenizava os cartazes de uma rua parisiense tomada pela greve: "os trabalhadores franceses protestam contra a pretensão do governo de aumentar a idade de aposentadoria em dois anos".

Onde ficam os longínquos horizontes do cinismo oficial? Será um ato de sadismo Estado vs Povo ou simplemente a indolência de um poder que esquece de adoçar a pílula aos seus submetidos? O Comitê Central do Partido quer demonstrar sua impunidade ante os trabalhadores? Poderia se considerar uma ironia dos rapazes do DOR (Departamento de Orientação Revolucionária) que tampouco querem se aposentar cinco anos mais tarde do planejado e nos deixam passar informações entre linhas para esquentar os ânimos?

Desconheço qual pode ser a hipótese correta, porém qualquer que seja esta não denota mais do que um sarcasmo cruel para conosco: desde há cinquenta anos não protestamos por nossos direitos de trabalho.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

No hospital

Marta está cansada dos hospitais. Tem - como a maioria dos seus conterrâneos - má sorte com a saúde pública. Um dos pilares da revolução nascente, não deixa de parecer um edifício carcomido numa estatística milagrosa, um pilar da destruição.


Faz algumas semanas esteve cuidando de um familiar em Calixo García. Entre outras vicissitudes, os soros que seu paciente necessitava foram comprados no mercado negro, a maioria dos medicamentos "decididos" e o tratamento supervisionado pelos próprios familiares. A força de averiguar aprenderam a lembrar a enfermeira da hora exata dos tratamentos, do nome de cada pastilha e o tratamento - levado a cabo por eles mesmos - para evitar escaras.

Como raramente havia água, trouxeram baldes; como não havia como esquentá-la para o banho, compraram um aquecedor; como o quarto era muito quente, pediram um ventilador emprestado. Levaram tudo: o sabonete, os lençóis, a comida, a poltrona do acompanhante, o creme, o álcool, as vitaminas e o algodão.

O único problema que ficou sem solução foi o assunto do entupimento do banheiro; ainda que o vaso sanitário tivesse sempre uma água verde-avermelhada pestilenta e que a torneira da pia tenha se arruinado irremediavelmente, poderiam ser considerados problemas menores tendo em conta a camada de imundície de todo o local, a destruição das janelas e os fios soltos do teto falso.

Marta me conta que terminou sua estadia esgotada: a única coisa que pede ao céu é morrer de infarto em sua própria casa, sem ter que desfrutar das comodidades da saúde pública cubana.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Dia dos pais



A primeira vez em que escutei falar das Damas de Branco foi num Dia dos Pais. El Ciro e Claudio Blanco faziam um documentário sobre a oposição cubana, como contrapartida a tres dias de telenovela de ficção a propósito da dissidência que estavam passando na Mesa Redonda.

Nunca vou esquecer o contraste entre as entrevistas do documentário e as imagens manipuladas da televisão cubana. Um amigo meu sempre disse que só uma das partes fala, eu lhe respondo: justamente, vivo num país insensato. Apesar de saber que a imprensa oficial mente, quando confirmei meu instinto pela primeira vez, a delícia foi inefavel: tive a prova.

No sábado, um dia antes do Dia dos Pais, fui saudar as Damas, é a elas à quem devo minha felicitação mais intensa. Durante as vinte e quatro horas de festejos elas serão as vozes dos pais que não poderão brincar com seus filhos, e seus vestidos brancos recordarão que atrás das grades do paraíso socialista há homens justos. Pablo Pacheco não poderá brincar com seu filho Jimmy. Contudo, não estará só: numa igreja da capital um grupo de mulheres rezará para que no ano que vem possam estar juntos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Os cães

Foto: Claudio Fuentes Madan


Só desmaiei uma vez na vida: caminhava pela avenida 23 e vi um carro atropelar um cachorro. O chofer e seu acompanhante se abaixaram, pegaram o animal pelas patas e o lançaram, agonizando, num latão de lixo a um metro de mim. A última imagem que ficou antes que eu caísse: o cachorro agitado, sangrando entre os resíduos enquanto meus ouvidos captavam o cantar dos pneus do moscovich (carro russo) distanciando-se a toda velocidade. Quando acordei estava na minha cama: a amiga que me acompanhava deu um geito de me colocar num táxi e deixar-me sã e salva, ainda que não desperta, na porta da minha casa.

Talvez esse instante haja marcado minha obsessão com os cães de rua: partem minha alma, me dá impotência não poder recolher todos, tremo ao vê-los cruzarem as ruas. Outro dia um amigo meu - ultra pessimista a respeito do futuro deste país - zombava da minha apreensão pelos animais; contudo este povo carrega muita indolência sobre seus ombros e os cães tem sido vítimas diretas do fenômeno da apatia nacional: sarnentos, feridos, extra fracos e sujos, fazem parte da paisagem cotidiana da minha cidade, como as árvores e os passarinhos.

O terrivel da sua situação só é superado pelos seus compatriotas do mundo animal, vizinhos no zoológico da 26: além de fracos, sujos e meio doentes, vivem em jaulas muito pequenas para seus tamanhos (o teto que os falcões e as águias tem como céu é realmente desalentador) e as vezes estão sós, dá a impressão de que estão alí só para que nos eduquemos nos fundamentos do maltrato animal.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Minha pobre cabeça


Foto: Claudio Fuentes Madan

Uma amiga me envia uma correspondência muito preocupada com a minha integridade física, da Espanha lhe chegou uma lista de setenta e quatro traidores da pátria entre os quais me encontro. Acontece que assinei uma carta, juntamente com outros representantes da sociedade civil, pedindo a flexibilização das facilidades para vender alimentos e a liberação das viagens de cidadãos americanos para Cuba.

A polêmica me fascina, aqui mesmo em Cuba tenho outra amiga blogueira que me chamou em seguida para me dizer que a porca tem que ser apertada até que não houvesse nem água para tomar, porque só assim a ditadura cairia: nem a mim ocorreu de chamá-la de "fascista", nem a ela a mim de "castrista assassina". Como é elementar terminamos nosso diálogo em total harmonia: ela me passou algumas interrogações e eu lhe apresentei outras dúvidas.

Não seria a primeira vez que na minha pequena ilha não teríamos nada para comer, já o vivemos - para nada relacionado com a política exterior dos Estados Unidos - depois da Perestroika e da Glasnost, que mandaram setenta anos de comunismo de cabeça para o inferno. Não creio que a democracia seja exportável, nem a fome uma detonadora da consciência social. Sempre me perguntei a quantas horas estivemos em 5 de agosto de 1994 de uma "Matança de Malecón" no estilo da de Tiananmen. Por acaso alguém especula que a China seja um país democrático?

Desde que tenho o uso da razão a política da guerra fria só serviu para que o Ministro das Relações Exteriores de turno repita um mantra infinito em quantos encontros de cúpula hajam pelo mundo "bloqueio, bloqueio, bloqueio", porém as contas particulares dos donos do país continuam "crescendo, crescendo, crescendo". Todavia a esquerda Européia e Latinoamericana aplaudem como se umas restrições econômicas pudessem justificar a ditadura mais longa do ocidente.

Essa é a minha opinião: pode estar errada, pode estar correta. Talvez seja ingênuo pensar que estas flexibilizações promoveriam a democratização de Cuba, contudo, o contrário acaba por ser - olhando-se friamente - igualmente naif. Agradeço a todos que tem mantido viva esta polêmica na rede sobre bases civilizadas e objetivas, especialmente Ernesto Hernández Busto, em Penúltimos Dias, me fez sentir que a Cuba harmônica e divergente não está muito longe, essa - como Reinaldo Escobar disse - onde "a discrepância política está legalizada".

Aos que pedem a minha cabeça, só uma observação: parece-me que vão ter que disputá-la com os rapazes do DSE, eles estão a solicitando antes.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A chuva de junho


Foto: Silvia C.

Depois de vários dias em desespero na ilha-sauna, o céu hoje enegreceu, os relâmpagos iluminaram as zonas mais escuras da cidade e cairam, por fim, as grandes gotas desta chuva atrasada que esperamos desde maio.

Eu, inclusive, quando menina gostava muito de "ver chover". Minha mãe me dizia que cada gota, ao cair no solo, era como uma bailarina fazendo piruetas. Talvez tenha sido essa metáfora que converteu, para mim, a chuva em algo quase místico: me limpa, me dá paz, me faz pensar naquelas coisas que o dia a dia sob o sol não me deixa perceber.

Quando julho chega tenho tanto calor que o meu cérebro "incha" como se fosse um disco rígido de um computador, e se a luz termina - ato sádico ou casualidade nefasta, a termoelétrica "Guiteras", como a cada verão, acaba de entrar em fase de manutenção, aumentando os apagões - e os ventiladores desligam, só o odor que anuncia o aguaceiro é capaz de me devolver o sossego.

sábado, 12 de junho de 2010

A Permuta

Foto: Orlando Luis Pardo Lazo

O otimismo me abandona sem que eu houvesse podido desfrutar - para meu pesar - um momento dessa sensação que tantos nomes tem, porém que somente um verbo define: crer. Mais uma vez essa outra Claudia - a cética - reprova a ingênua: te adverti que a ação era "duvidar". Quando Pablo Pacheco me chamou emocionado pelas conversações iniciadas entre a Igreja Católica e o governo cubano, disse-lhe: Não me iludo, porém me alegra que tu no cárcere e condenado a vinte anos por escrever tua opinião, não percas a fé.

Uns dias mais tarde começou um translado de prisioneiros políticos que eu decidi batizar como "A Permuta". Sempre tão incrédula! - me reprimi - dá um tempo, as vezes libertam alguém antes que o espírito de Fariñas se liberte do corpo. Quanta ingenuidade a minha e quanto cinismo o do meu governo.

Quando me inteirei - logo após o estica e encolhe típico do Ministério das Relações Exteriores - que o Sr. Manfred Nowak, Relator Especial do Conselho de Direitos Humanos sobre a Tortura, não viria a Cuba, vi com clareza; estamos na presença da Permuta, quem gostar tudo bem e quem não que apodreça na prisão. Inclusive fico paranóica e me pergunto se as duas decisões (diálogo Cardeal-General e a negativa de entrada do relator) puderam ter surgido ao mesmo tempo de uma só mente. Não se tratava, no início, de libertar os jornalistas e dissidentes doentes? Em qual momento "mudar de província" teve o stauts de "libertação"? É tortura encarcerar um homem por suas ideias? E mudá-lo de cárcere, o que é?

Eu ficaria fascinada se amanhã alguém me mostrasse as evidências do meu equívoco, que foi objeto de sermão dos meus amigos "Tu sempre tão radical!" , que os detratores de Octavo Cerco invadiram o foro com comentários do tipo: Claudia, te enganaste! Retrata-te, Raúl Castro liberou os doentes! Porém não sei porque estes translados de prisioneiros, a negativa de entrada do relator e um diálogo sem prazos nem compromissos me lembram o jogo "Colocar o rabo no burro": essa disputa onde alguém, as cegas, trata de colocar um rabo num animal pintado, guiando-se pelos gritos de um grupo que não entra em acordo sobre o lugar que a cabeça do animal ocupa no papel.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Viver sem água


Há vezes que a assim chamada, no meu país, "fatalidade geográfica" não nos atinge por poucos metros, é o meu caso: vivo em El Vedado, numa zona onde tenho água todos os dias. Apesar da sentença filosófica "o homem pensa como vive", trato de sair do meu ambiente úmido para constatar que ao meu redor outros aprendem a viver sem água.

Tenho uma amiga que faz tempo que tinha uma inodora branca, a água lhe chega a cada dois dias e a caixa d`água não é suficiente para se dar ao luxo de esvaziá-la cada vez que usar: umas asquerosas marcas amarelas lhe recordam, a cada quarenta e oito horas, que clarear a louça pode se converter num luxo. Contudo não se queixa, há outros - e ela sabe - que estão pior: Leo recebe pipa, lá em Centro Havana, uma vez pode semana. Como tem a casa declarada como "inabitável", não pode por uma caixa d`água no terraço pois corre risco de um dia ver o teto cair sobre sua cabeça. Fora da capital é pior, pode passar uma semana sem que uma gota de água saia por essa pia meio quebrada que não vale a pena consertar.

Todas essas penúrias só podem ser resolvidas - quem sonha contudo que respondam aquela carta que uma vez enviou ao Comitê Central detalhando sua penúria? - no mercado negro: pipeiros com um caminhão, mangueiras e muita água enchem, por algumas centenas de pesos, as cisternas ressecadas e diminuem a necessidade de refresco provocados pelos calores deste junho sem chuva. Como nem todos os vizinhos podem pagar a pipa ilegal, sempre há quem chame a polícia para dedurar o delito de "comprar água no mercado negro". Não há quem me convença do contrário, em espanhol isso se chama inveja e é uma das características primogênitas do homem novo: a miséria humana.

Esse veneno contra o bem estar do próximo tem, contudo, resultados estranhos: faz uns dias um amigo me contava como o haviam pegado em flagrante enchendo suas caixas d`água, pois um vizinho chamou a polícia e denunciou o pipeiro. Meu amigo ficou sem água, o vendedor pegou uma multa de mil e quinhentos pesos e o vizinho - esta é a parte absolutamente incompreensível - também ficou sem água pois o Estado já não pode agradecer cada delator com uma prebenda. Porque esse vizinho não denuncia com a mesma perseverância o desperdício de água pelos encanamentos quebrados e caixas d`água transbordantes que pululam pela cidade? Por exemplo, a cisterna da empresa elétrica ao lado do meu edifício, de tanto que vaza me faz imaginar que tenha uma fonte no fundo do apartamento. Por desgraça sei por que o faz: sua "combatividade"ante o mal feito não vai aos altos escalões oficiais por covardia, porque a cisterna do Estado tem impunidade para desperdiçar água enquanto que seu vizinho não tem direito de desfrutar de uma ducha, e isso de ferrar "o debaixo" tornou-se, desgraçadamente, um esporte nacional.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O inimigo


Foto: Claudio Fuentes Madan

Ainda recordo, embora sendo muito pequena na época, das latas de conserva e dos sabonetes que minha mãe guardava num cesto de metal russo com o objetivo de nos preparar para a intervenção militar norteamericana. Chamava-se "estado de Alerta Vermelho" se minha memória não falha, e as vezes havia ensaios sobre como se proteger, nos quais eu não participava, por sorte. Segundo meu pai teríamos que nos esconder - minha mãe e eu - nos porões dos edifícios e lá esperar que a guerra terminasse.

A imagem era aterradora, piorada porque com cinco anos eu não entendia bem a diferença entre "ensaio eterno de preparação para a defesa" e "enfrentamento armado iminente". Acreditava - acreditei de fato durante muitos anos- que um dia teria de me esconder de militares estadounidenses que tratariam de me matar com metralhadoras.

Despedi-me várias vezes com lágrimas nos olhos dos meus brinquedos e lí, aos oito anos mais ou menos, o diário de Ana Frank, para que o exemplo dessa menina valente me desse forças quando chegasse minha vez de sobreviver no escuro.

Na secundária descobri a mentira, senti-me tão irritada que nunca disse nada à ninguém. Como puderam nos aterrorizar dessa maneira por gosto? Em bom cubano há uma frase para isso: "nos cogieron pa`eso" - nos pegaram para isso, a mim e a toda minha família: ainda em pleno período especial minha mãe sofria quando tinha que abrir alguma daquelas latas soviéticas que nos salvariam da inanição sob as bombas.

O pior é que a arenga oficial não tem evoluido muito: ainda existem as estúpidas aulas de PMI (Preparação Militar Integral) no pré-univeristário, antes dos dezesseis anos os adolescentes são capazes de se arrastarem pelo chão de terra "tipo soldado das tropas especiais" até uma trincheira e disparar uma escopeta, além disso sabem de memória o que fazer quando estivermos no "Alerta Vermelho" sem pé nem cabeça. Contudo algo mudou em nós (os adultos) e também neles: minha mãe já não guarda latas (exceto para os ciclones), meus amigos não temem sair correndo com seus filhos para um porão para se protegerem das balas, o professor de PMI já não é tão exigente (sabe que nunca estaremos atrás de uma trincheira real) e os meninos pequenos nas primárias não temem um dia serem Ana Frank.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

E agora, o que falta?



Foto: Claudio Fuentes Mandan

Todos os meses fico agoniada pela ausência aleatória de produtos de primeira necessidade, pode ser azeite, champú, detergente, leite, ovos ou toalhas higiênicas. Cada vez que se aproxima o final de cada mes a pergunta me invade: o que faltará agora? Como se a minha cesta básica tivesse livre arbítrio e jogasse comigo um "estar faltando". As vezes não posso lavar, outras é agônico limpar, minha frigideira sofre no abandono ou minha caçarola de feijões se deprime sem a sua inseparável companheira de arroz.

Trato de buscar o momento em que tudo isto começou e me surpreendo ao descobrir que desde que era uma menina a economia joga escondido comigo. Ainda recordo claramente as coisas pelas quais minha mãe suspirava quando eu tinha só sete anos (comida, cigarros e sapatos para mim), aquelas outras que povoaram meus desejos de adolescente (chocolate, carne, um par de sapatos e sabão) e chego a minha idade adulta para comprovar que continuam, com seu sumiço persistente, exasperando minha intimidade.

Pergunto-me, como o resto dos cubanos, até quando uma garrafa de ácido muriático para limpar o banheiro será tão protagonista na minha vida? Será que quando tiver oitenta anos ainda evocarei com nostalgia um rolo de papel higiênico?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Um beijo ilegal

Este vídeo anda "misteriosamente" rolando por Havana. Sem mais preâmbulos mostro aqui um exemplo do uso e abuso que a Polícia Nacional Revolucionária faz das suas funções.



domingo, 30 de maio de 2010

Sem foto de R



Foto: Orlando Luis Pardo Lazo

Este post não tem a imagem de R porque não tive coragem para lhe dizer que me deixasse fotografar o buraco da facada em sua nádega. Era por volta das duas da manhã de sábado e estávamos Ciro, um jornalista e eu na casa de Juan Juan quando tocou o telefone.

R gritava do outro lado do telefone, podíamos escutar seus soluços e as palavras "sangue" e "me espetaram", estava exatamente a uma quadra da loja "La Mariposa" em Novo Vedado, na esquina da sua própria casa. Os homens saíram para buscá-la no carro de Juan Juan. Minutos depois tinha diante de mim uma mulher com o rosto manchado de sangue, a boca inchada e um furo com auréola rosa na calça, justamente onde se dão as injeções: tomaram seu celular, deram-lhe pancadas e para rematar um "espeta, espete-a mais!", que graças a deus não chegou ao mais ou não haveria saído com vida. Ajudei-a a tomar banho enquanto ela só repetia "eram uns meninos, da idade do meu filho", e tremia como uma folha.

-Temos que ir ao hospital porque a ferida tem que levar pontos, depois descansas.

No Clínico Cirúrgico o cirurgião de plantão, que despertamos, perguntou:

-O que aconteceu?
-Assaltaram-na, esfaquearam-na - disse-lhe, e então começou o surrealismo de verdade:

Sentou-se numa escrivaninha, pegou papel e caneta, olhou R e sem diferença entre o furo na sua nádega e sua rotina numa amigdalite, dispos-se a preencher um formulário:

-Nome? Sobrenome? Idade? Município?

Enquanto ele tentava que sua esferográfica escrevesse, eu matava uma baratinha que deambulava sobressaindo-se pela mesa e que bordejava sem dificuldade o papel. Quando terminou com as formalidades deu uma olhada - pensei por um instante que nunca chegaria a fazê-lo - na ferida.

-Um pontinho e tudo bem, tranquila.

Fomos dar o ponto. O médico me olhou como se eu estivesse completamente fora de mim quando comecei a espantar as moscas da enfermaria: ele, que divide escritório e escrita com as baratas, deve pensar que sou uma maníaca por limpeza. R se encostou - não vou dar detalhes da maca - e o médico preparou o fio para costurar. Um segundo antes de ver a agulha dentro da pele, perguntei:

-Não tem anestesia?
-São apenas pontinhos, não faz falta.
-Os pontos doem.

Juan Juan, parado ao meu lado, branco como o leite e suando frio interviu:

-Porém acaba de ser espancada. Não há anestesia?

Graças a deus que havia e a fizeram, pois os "dois pontinhos" demoraram quinze minutos para serem feitos e R não estava em condições de aguentar mais dor. Por momentos tudo ficou muito denso para mim e tive vontade de vomitar: as moscas, o sangue e o calor. Saí para pegar ar.

-Que líquido é esse? - exclamou Juan Juan quase no final, nestas alturas eu estava dentro outra vez fazendo catarse com as moscas, que perseguia com fúria.

-Iodo, o melhor desinfetante do mundo.
-Ainda bem que não sou alérgica - disse R, e tive que sorrir, senão caía desmaiada.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O estado irracional


Foto: Penúltimos Días

Neste dias a onda da expectativa me pegou: por mediação do Cardeal Jaime Ortega nos inteiramos que Raúl Castro estaria disposto a libertar alguns presos políticos e de consciência - os mais doentes - atrevo-me a imaginar. Este diálogo entre a Igreja Católica e o General não é fortuito, senão a consequência dos numerosos crimes morais que tem caracterizado a "jovem presidência" do Herdeiro.

Quem recorda nestas alturas o ar de mudanças políticas e econômicas que muitos viram no novo porém quase octogenário presidente? Longe das esperadas reformas nos chegou um prisioneiro de consciência morto em greve de fome, um Guillermo Fariñas intransigente em seus ideais e disposto a seguir os passos de Zapata Tamayo, um aumento consideravel dos atropelos da polícia política contra as Damas de Branco e o lógico repúdio da opinião pública internacional, que os meios oficiais se empenham em chamar de "Campanha Midiática Contra Cuba".

Não tenho esperanças nas boas ações de um Estado cujo simples fato de existir demonstra o totalitarimo que o sustenta. Contudo, mesmo que a mediação da Igreja não dê frutos nem liberdades, alegra-me que os representantes da Fé Católica em meu país hajam tomado posição públicamente frente aos abusos cometidos com total impunidade pelo Estado Cubano.

Talvez mostre-se um pouco ingênua minha conformidade com o diálogo somente, sem esperar os resultados, visto que o objetivo destas negociações seria encontrar um ponto intermediário de benefício para ambos oponentes (Raúl Castro vs A Liberdade), e evidentemente os livres não foram convidados à colocarem suas cartas na mesa. No Comitê Central do Partido a pasta "coerência política" foi guardada sob chave há muito tempo, espero que a Igreja lembre de sopesar este detalhe.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Um povo de menores de idade



Olho com aversão - para que negá-lo? - a cara de Ramiro Valdés na televisão. Desta vez lhe cabe o sermão aos trabalhadores do setor de construção. Já quase não me dou ao trabalho de escutá-lo, cada vez que fala é para resmungar conosco - ele e Machado Ventura se transformaram, para dizer de certa forma, nas bábás do cidadão cubano: admoestações, castigos e ameaças.

A mesma cantilena de sempre: trabalhar mais, pedir menos, não queixar-se tanto, ser combativo, cumprir as tarefas da Revolução, não desviar recursos, não esperar estímulos, confiar nos líderes do processo, ser fiel ao Partido...é a chatice do pai autoritário `a seus filhos eternamente menores de idade.

Ramiro não se pergunta o que os construtores comeriam se não "desviassem" alguns ladrilhos para serem comercializados no mercado negro? Os chefes sindicais, segundo parece, fazem vista grossa. Será que eles também precisam de um salário para sobreviver? Porque não se enche de valor e passa a batuta aos "descumpridores" para que contem sua versão do paraíso dos trabalhadores?

Ao invés de ficar ameaçando com retirada de estímulos e prebendas - que só fazem florescer o oportunismo e a dupla moral - deveria se perguntar porque o salário não é razão suficiente para trabalhar bem, para obter melhores resultados e para aumentar a produção. Claro, isso ele faria se se importasse de verdade, e sim - além disso - não confundiria o Sindicato Nacional de Trabalhadores da Construção com um grupo infantil.

domingo, 23 de maio de 2010

Sem direito de mostrar o rosto



Tornou-se habitual no Noticário Nacional de Televisão ver grupos de cidadãos protestando em diversos lugares do mundo. É irônico para nós, os cubanos, vermos mobilizados espontâneamente os setores de uma sociedade nas notícias do único sistema de informação a que temos direito. Por sua vez é gratificante: sentir que lá fora existem pessoas que intimam o poder com ações civis; e entristecedor: toma-se de repente consciência da terrível solidão em que o Estado nos deixou, um insignificante ante o todo omnipresente.

Outro dia passavam imagens de um protesto de imigrantes nos Estados Unidos e alguns dos manifestantes falavam para as câmeras. Uma mulher de uns quarenta anos se queixava: estava há vários anos no território e ainda estava sem documentos, se os operativos de imigração a encontrassem seria deportada do país. Eu olhava a televisão e pensei - por momentos esta minha Ilha cresce na minha mente e me esqueço do pequeno espaço que ocupamos no mundo - Como diz isso em frente a câmera? Agora os agentes terão seu rosto e irão lhe buscar onde quer que se esconda!

Eu me esquecia que os oficiais de emigração, os serviços de inteligência e contra-inteligência, as leis, o governo, os meios de imprensa e os sindicatos não respondem todos à mesma entidade, e menos ainda ao mesmo partido, além de que a polícia política - bendita liberdade - não existe. Na minha terra, por exemplo, o consulado cubano faz serviço de espionagem na Espanha e envia fotos aos serviços secretos cubanos e ao Ministério do Interior, para que saibam "quem se porta bem lá fora e quem não", os agentes recebem ordens diretas da Segurança do Estado para que alguns cidadãos "complicados" não possam aceder à instituições públicas, os jornalistas oficiais são separados dos seus centros de trabalho por publicarem em sítios (internet) críticas à ideologia oficial, os que se atrevem a dar notícias sem pedir permissão podem um dia levantarem-se com uma condenação de vinte anos de cárcere e os opositores políticos suportam a ira e a represália de todo o Comitê Central do Partido sobre suas cabeças.

Olho os ilegais nos Estados Unidos com seus cartazes e seus olhos desafiadores e me dá uma ligeira inveja, sei que a minha vizinha nunca se atreveria a dizer diante da lente o que esta mulher acaba de gritar ao mundo. Minha vizinha não teme ser deportada, tem carteira de identidade, um endereço fixo e um rosto que, contudo, não mostraria desacordo sob nenhuma circunstância.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A impunidade do verde


Foto: Claudio Fuentes Madan

Minha amiga ia ao volante enquanto eu, ao seu lado, desfrutava da raridade de passear por Havana de carro. A tarde caía amarela e atravessamos 41 e 42 para pegar a avenida 23 no Vedado. Súbitamente um Lada parado pomposamente no meio da 41 nos impediu a passagem - a nós e também aos que iam atrás.

Ví a mão da minha amiga aproximar-se impulsivamente da buzina enquanto seus olhos, obedecendo ordens mais racionais, focavam na placa do "dono da rua". Só uns segundos se passaram para que seus dedos resvalassem lentamente, sem o menor ruído, até suas coxas. Disse-lhe irônicamente:

-A impunidade é verde.

Porém me olhou com uns olhos cheios de tristeza que converteu meu sarcasmo num ato de sadismo. Senti pena.

Em câmera lenta moveu a alavanca de câmbio para dar marcha à ré. Entre os "puaf,puaf,puaf" do tubo de escapamento trocamos de via e muito vagarosamente passamos ao lado do militar, que nem sequer percebeu que tinha uma fila de arrolhados atrás e conversava tranquilamente.

Não consegui ver a sua cara, porém vi o relógio da sua mão que iluminava, como o dente de Pedro Navalha, toda a avenida.

Nota esclarecedora: A placa verde pertence aos carros de propriedade do Ministério do Interior.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Pura diversão



Foto: Penúltimos Dias

Um grupo de conhecidos conversávamos sobre os movimentos de repúdio. Havia de tudo: os radicais, os moderados e os "ingênuos", eu estava - há que se falar - no grupo dos primeiros. Uma garota contava que quando ela ia às marchas sentava-se ao estilo piquenique no primeiro gramado que encontrava, e que jamais havia gritado nem meia palavra de ordem. Outra relatava como dizia no seu CDR que no primeiro de maio desfilaria com seus companheiros de trabalho enquanto dizia justamente o contrário à estes Um rapaz contou como terminou com sua ex-noiva: ela o havia chamado porque não poderia vê-lo nessa tarde, havia sido convocada para um movimento de repúdio contra as Damas de Branco e não podia faltar. Discutiram e a relação terminou antes da chamada telefônica. Outra, mais sutil, amadora em montagens de fotos digitais, entregava no seu sindicato uma prova "perfeita" da sua presença na marcha da vez.

Nesse momento uma das presentes confessou haver participado de um estranho movimento de repúdio contra a embaixada Checa. Enumerou algumas das palavras de ordem gritadas, "Que se vão os lacaios", entre outras, e concluiu: -Se eles soubessem o pouco que nos interessam as razões do movimento, estamos alí porque não nos resta outro remédio e entre a conguita e o rítmo, nos divertimos.

Quase desmaiei ante tamanha barbaridade. Como uma pessoa pode ser tão inconsciente? Acontece que agora a vítima do repúdio - aquele em que gritam impropérios, obscenidades e no melhor dos casos palavras de ordem políticas - tem que "imaginar" que os alaridos não são o que parecem, senão uma festa popular de estudantes com a massa cinzenta flutuando no vazio?

O tema congelou, durante uns segundos todos a olhamos estupefatos e alguém atinou de perguntar: Quem se importa que te divirtas as custas da vergonha do outro? Porém a garota não entendia: -Não sei, tu acreditas que o pessoal da embaixada se aborreceu?

Todos achamos uma desculpa para sairmos. Eu não lhe disse nada, talvez comece a analizar as coisas no dia em que o grito a afogue no momento de jogá-lo na minha cara.