sábado, 21 de novembro de 2009

O terror


Foto: AP
A rua tomada por centenas, eu absolutamente não o esperava. Sei que a qualquer momento deixarão de ser pessoas e se converterão em máquinas de reprimir. Silvia e eu filmamos dentro de um carro, deixo-a em algum ponto longe do olho do furacão e volto à 23 com G. Estou muito assustada, com a câmera na mão Claudio mistura-se à imprensa internacional. Vejo quase todos meus companheiros de academia - alunos e professores. Beijo Reinaldo, faz uma brincadeira sobre as televisões, porém eu não posso rir. Quero dizer-lhe - Vamos correr! Contudo me calo, estou no mundo irracional, a pouca prudência que ainda tenho controla meus impulsos.

A minha direita há uma parede humana e uma mulher gesticula, o horizonte não existe. Eu sei, em instantes nos caem em cima, são uns quatrocentos e estou aterrorizada. Caminho para trás, não posso evitá-lo. A imprensa concentra-se em torno de Reinaldo, o ar já não é respirável. Uma das minhas companheiras de classe me diz - vamos para lá, onde estão as câmeras - não vás, digo-lhe, vão nos arrasar. Creio que por segundos corro e chego no Riviera, tenho a cabeça a mil...fugí, que horror. Volto sobre meus passos, não posso nem pegar o celular, a avalanche passa em frente gritando: Fidel!, Fidel! e nos arrasta a todos. Imediatamente tenho uns tipos atrás, um grita com lascívia: Isto está bom hoje!

Numa esquina Lía, Vallín e Iván sobreviveram À Onda. Ela se aferra ao seu laptop enquanto os outros estão numa espécie de calma reveladora - não têm medo! - penso. Mais tarde me disseram que estavam asustados, espero algum dia conseguir dominar-me como eles.

Lamentávelmente agora mesmo não posso parar no lugar, estou tremendo. Agarro Lía, paro um táxi e entro, mando uns twits, digo ao taxista que vou para Novo Vedado. Cruza a G e lhe peço que regresse. Dobramos a F e entramos na Avenida pela 21, uma Torrente Humana se move da esquerda para a direita, jamais ví coisa mais impressionante: há gritos, socos, figurantes, policiais, gente histérica, estudantes e uns cordões da segurança do estado que correm fazendo círculos de um lado para o outro. O tráfico está desviado por tipos vestidos de civil, um ciclista é empurrado rua acima, diante de nós, por um segurança gritalhão - Vai! Vai!, vaza!

Chamo Yoani - isto está fora de contrôle, vou para lá - estou convencida de que estão todos inconscientes e nós passaremos a noite chamando delegacias e percorrendo hospitais. Eu imagino Reinaldo caído na rua e esses selvagens passando-lhe por cima. O taxista está estupefato, pega um celular e faz umas fotos.

Quando chego, Reinaldo já havia chamado, não posso acreditar porém me calo. Entra pela porta e faço-lhe ver que digam o que disserem: estão vivos por milagre. Hoje o governo colocou, intencionalmente, as vidas de um grupo de pessoas em perigo. A partir deste instante responsabilizo os orgãos da segurança do estado e Raúl Castro por qualquer coisa que possa acontecer aos que hoje - depois de haverem sido arrastados por uma horda, golpeados, interrogados e detidos - finalmente chegaram em suas casas:*

-Marleny González
-Yoan Hernández
-Yadamí Domínguez
-Frank Paz
-Wilfredo Vallín
-Eugenio Leal
-Pastor Manuel
-Iván Garcia
-Silvio Benítez
-Jose Alberto Álvarez Bravo
-Lilia Castañer Hernández
-Lianelis Villares

Hoje fui covarde e me repreenderei sempre, hoje descobri O TERROR.

"Faltam-me alguns nomes de pessoas que ou não conheço ou não pude ver, prometo atualizat a lista o mais rápido possivel.
Um resumo de todo o ocorrido em Penultimos Dias.

Nota: Temos um vídeo bastante completo de todo o sucedido, é muito grande e não consegui fazer upload. Amanhã tentarei de novo.
Aqui está o vídeo:

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Yoani Sánchez e Barack Obama: Perguntas e Respostas



Presidente Barack Obama em Geração Y: Agradeço esta oportunidade com que me brindas para compartilhar impressões contigo e com teus leitores em Cuba e no mundo, aproveito para felicitar-te pelo prêmio María Moors Cabot da Escola Graduada de Jornalismo da Universidade de Columbia que recebeste por promover o entendimento mútuo nas Américas mediante tuas reportagens. Decepcionou-me que te impedissem de viajar para receber o prêmio pessoalmente.

Teu blog oferece ao mundo uma janela particular às realidades da vida cotidiana em Cuba. É revelador que a Internet haja oferecido `a ti e à outros valentes blogueiros cubanos, um meio tão livre de expressão, aplaudo estes esforços coletivo que fazem seus compatriotas para expressarem-se através da tecnologia. O governo e o povo estadunidense nos unimos a todos vocês em antecipação ao dia em que todos os cubanos possam se expressar livre e públicamente sem medo de represálias.
Ler a entrevista completa aqui.

O tamborete

Foto: Claudio Fuentes Madan

Nunca participei de uma reunião da juventude e muito menos de uma do partido. Com certeza posso imaginar as caras, o ambiente, o ar e as intervenções de muitos dos presentes. Desde que nasci quase toda minha família vivia de reunião do núcleo em reunião do núcleo.

Na época dos cartazes "O Partido é imortal" por toda a cidade, os militantes começaram a chamar suas reuniões "del Imortal". Acostumei-me a escutar frases como "Não posso te ver esta tarde, reúne-se o Imortal'. Pela cara das pessoas se deduzia que aquilo era o mais chato do universo, suponho como que uma assembléia de grupo na escola secundária multiplicada por um milhão.

Uma dessas amigas contribuintes da Imortalidade, lá pela época do Elían, ainda assim levantava a mão e mandava suas "críticas construtivas de dentro" - consta que já abandonou o longo caminho da Eternidade. Nesse dia, como de costume por aqueles dias, falava-se do caso do menino. Minha amiga levantou a mão:

-O comandante quando fala da escola de Élian González menciona sua carteira. Será que ninguém se dá conta de que Élian senta-se numa mesa? Porque não podemos corrigir esse erro do Comandante, e como esse, muitos mais?

Um dos presentes levantou-se com firmeza e sem esperar sua vez desafiou-a:

-Companheira, saiba você que Fidel disse tamborete...eu digo TAMBORETE!

A reunião acabou sem maiores consequências, porém desde então o homem é popularmente conhecido no núcleo do partido como "O TAMBORETE".

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Pobres vacas

Recebeu-me na porta desse modo - tens que ver isto, as vacas com a cabeça no ar condicionado, porque dão mais leite! Com certeza não entendi nada. Que vacas, que leite, que ar condicionado? Para cúmulo os tres produtos me são pouco familiares: nunca vejo vacas, rara mente tomo leite e o ar condicionado é um dos meus objetivos à alcançar antes dos quarenta.

Tratavam-se de imagens de arquivo dos anos sessenta. Fidel Castro parecia haver descoberto que se as vacas tinham a cabeça introduzida na climatização enquanto o resto do corpo continuava na temperatura ambiente...produziriam mais leite.

Quase não podia acreditar, compreendi que a loucura da mesa redonda havia começado 30 anos antes de que eu nascesse. O delírio foi cotidiano desde 1959 e o experimento, além da espécie humana, perturbou também o reino animal.






sexta-feira, 13 de novembro de 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Regresso à cotidianeidade


Foto: Claudio Fuentes Madan

Os dias passam e tudo vai voltando a ser como antes. Yoani ainda de muletas e Orlando que se nega de ir ao médico, mesmo assim as ruas vão se parecendo de novo as ruas da minha cidade. Havana dos medos dissimulados, da pobreza que ninguem quer ver, da polícia reprimindo e corrompendo, da segurança trapaceira, da gente sem Fé e da arte decadente.

De novo os minutos de liberdade são contados no turno de hora e meia no Chaplin durante o ciclo de cinema polones. Outra vez vem meu amigo me pedir a versão atualizada de Voces Cubanas. A gente fala da situação econômica muito baixo, olhando de soslaio, a política fracassada do govêrno.

Vou no ônibus e vejo os meninos do MININT, creio que não chegam aos 18, com a mesma cara de abulia que têm todos os demais. Não posso deixar de me perguntar até onde chega a irracionalidade dos pais. Sorrío cada vez que os protagonistas da indisciplina social em pequena escala (no P4 somos a maioria por larga margem) dão o dinheiro ao chofer e não o jogam na caixinha, jogando-lhe na cara todos estes spots televisivos que dizem que ao pobre chofer não há que se dar nada: tudo para Papá Estado, Senhor Absoluto.

Vou caindo de novo em mim e olho as pessoas ao meu redor. Cansados e suados regressam às suas casas, uns rapazes diante de mim explicam como conectar dois computadores em rede, guardo porque se um dia me faz falta: cortar o cabo, unir o primeiro com o sexto e o segundo com o quarto. Imagino-os salvando uns civis de sequestradores sem documentos que dizem ser o poder supremo. Algo me diz que não falta muito para que cheguemos neste ponto, para que a solidariedade cidadã floresça nesta ilhota.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Prefiro vítima do que carrasco



Foto: Fotos Cuba Hoy

Não queria escrever, minha paranóia me dizia que deveria esperar estar outra vez no meu juízo perfeito. Nestas últimas 48 horas tenho estado irascível, ferina, histérica, compreensiva, maternal e com instintos assassinos...quis matar e quis salvar. Senti-me agradecida à polícia por proteger-me da segurança do estado e quis arrasar esse corpo que responde ante ordens de desconhecidos. Desejei estar no corpo de Yoani e sofrer a dor, senti-me merecedora de cascudos ou digna de liderar o Juízo Final. Imaginei-me capaz de perfurar a cabeça dos que na sexta-feira golpearam Yoani e Orlando e a mim não, e tenho me perguntado por que. Perdoei e voltei a julgar.

Senti a culpa e culpei, tenho me perguntado tantas coisas que não tenho tempo de me responder. Tratei de reconstruir os fatos dois milhões de vezes porém creio que as lacunas são cada vez piores. Não recordo se twittiei da patrulha, não sei se o primeiro twitt foi quando me agarrava com fervor na cintura de Yoani ou quando via suas pernas pendendo do carro preto da segurança. Não lembro se chamei, se não chamei, à quem chamei. Nem sequer me lembro da cara do segurança que ia ao meu lado. O que sei é que aguentava a vontade de vomitar todo o tempo, arrependo-me de não haver lançado todo o café que tinha no estômago em cima do meu repressor...nesse momento tratava de parecer forte.

Uma escritora amiga me disse: Para que esperas, cada vez que escreves te desvelas, não há nada que possas ocultar. Tem razão, dá no mesmo que o saibam: a brutalidade me confunde, o abuso me dá vontade de chorar, a injustiça me abala e tenho tido que lutar nestas últimas horas com um Ódio profundo que me quer assumir.

Só uma imagem me libera, imagino o diálogo do quebra-ossos com seu filho:

-Papai, o que te ensinaram na academia?
-Ensinaram-me a bater forte sem que fiquem marcas.

Então acaba-se a fúria e o repúdio, porque uma profissão tão ruim e desprezível não desperta nenhum sentimento em mim.

sábado, 7 de novembro de 2009

Violência contra a não violência



Sexta-feira, academia blogueira, terminamos a aula de cultura cubana com Miriam. Ambiente descontraído: os Taínos e os mitos. Antes de ir-se Iván me disse - Nos vemos as cinco e meia. Soubemos por amigos, sabíamos que Aldo, Luis Eligio, Amaury e outros jovens iam caminhar hoje pela 23 e G até L com cartazes contra a violência. Uma marcha cívica num país onde o civismo foi isolado pelo totalitarismo, onde o poder envelheceu e os últimos estertores de um sistema que se esboroa são uma resposta cega, chilique puro.
Ficamos, Orlando Luis, sua noiva, Yoani e eu congregados e fazendo hora para a marcha. Saimos da casa nervosos porém convencidos de que não estariamos sós. Pela rua G Orlando ia dizendo piadas das quais não me lembro porém que me faziam rir as gargalhadas. Um homem se masturbava em pleno dia em Zapata, Havana era como sempre. A parada do P11 estava repleta, 27 e G, a unica esquina onde se pode pegar algo que te leve para Alamar.
O carro apareceu do nada, chapa amarela, modelo chines novo: dinheiro para reprimir. Vamos tranquilos, me disse Yoani de brincadeira e os tipos se abaixaram com cara de não estar tranquilos, deve ser triste ser um valentão. Negamo-nos a entrar no carro, eram tres e nos ameaçavam:

-Entrem no carro agora.
-Deixem-nos ver seus documentos ou tragam um uniformizado.

Orlando tinha seu celular na mão. "Pardo não graves" - disse o de camisa alaranjada -peguei o meu. Ninguém me deu importância, enviei o primeiiro twitt...
Em menos de tres minutos chegou uma patrulha, um casal de policiais - mulher e homem - olhavam estupefatos a cena. Cumpriam ordens ligeiramente em câmera lenta, a mulher me disse:

-Não resistas.
-Eles estão sem documentos - ocorreu-me esclarece-la.

Yoani se agarrava numa moita, eu na cintura de Yoani e a mulher me puxava por uma perna. Haviam arrastado Orlando, ficou fora do meu campo de visão. Um homem na parada olhava com cara aterrorizada, as pessoas não diziam nem meia palavra. A oficial, muito jovem, me deu uma chave que me deixou imobilizada, podia ter esperneado um pouco porém fiquei atônita ao ver as pernas de Yoani saindo pela janela de trás do carro da segurança do estado.
Enfiou-me na patrulha enquanto eu gritava:Yoani!, Yoani! Porém me dei conta de que ninguém poderia ouvir-me, tudo estava herméticamente fechado, a mulher de Orlando forcejava com o policial, o corpo de Yoani era enfiado a empurrões de cabeça no carro e o telefone de Orlando saiu voando pela janela...enviei o segundo Twitt, com a esperança de que alguém entendesse mal ou bem o que eu conseguia teclar.
A garota policial subiu na patrulha e me disse:

-Porque resististe? Não queremos golpeá-los.
-Quase me rasgas a camisa - disse o outro da PNR (Polícia Nacional Revolucionária) - enquanto enfiava a noiva de Orlando no carro.

Viam-se envergonhados, por um momento acreditei que nos pediriam desculpas:

-Vocês tem suas identidades em cima? - disse ela quase docemente - e nos entregou o telefone de Orlando que soava sem parar.

Desgraçadamente chegou o de camisa alaranjada, entrou e fechou a porta...ficou ao meu lado. Os policiais se calaram o começou o diálogo.

-Claudia, desliga o telefone.
-Esquece.
-Que nojo - disse a noiva de Orlando.

O resto puro insulto, bronca surrealista.

-Teu nome não passará à história - enfatizou.
-Não me importa, porém tu nem sequer tens nome.

Quando desci do carro virou para G.

-Então será pior.
-Tuas ameaças são o teu medo. Estão no fim.
-Palhaça.

Colocar o pé na esquina da casa de Yoani me deu vertigem, não havia luz no edifício, não podia ligar para o celular de ninguém e estava ficando sem saldo. Nisso recebi a primeira chamada com um 00 em frente e soube que nada havia sido em vão, inclusive se todos haviamos sido presos e a marcha suspensa. Quando mais tarde assisti o video que Ciro me trouxe soube com certeza: estão perdidos, a contagem é regressiva.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O personagem Tabo, 2009


Estão retransmitindo "Sua própria guerra" na televisão e parece que estou assistindo uma série extraterrestre, de um país onde as pessoas falam e se movem como no meu porém que não o é. Uma espécie de novela de Ray Bradbury, onde os alienígenas são idênticos a nós salvo por pequenos detalhes, porque somos nós em outro tempo e outro espaço. Talvez poderia compará-la também a um Discovery Chanel onde nos explicariam que o homem povou a terra por duas vezes, o documentário se aprofundaria na civilização daquele homo sapiens que uma vez, antes de um desastre natural X, ocupou o mundo em que nós vivemos agora, milhões de anos depois.

O pobre Tabo de hoje não estaria orgulhoso de ser infomante da polícia, chantageado pela PNR (Polícia Nacional Revolucionária) buscaria desesperadamente a maneira de subir numa balsa para sair batido do país antes que o descubrissem no bairro. Sua esposa, que quando não era malfeitor, passava fome e não podia alimentar sua filha, jamais lhe havia perguntado de onde saía o dinheiro que trazia para casa e seu humor, longe de piorar pelas novas relações de seu companheiro, havia se adoçado. Ele nunca pode dizer-lhe que era da PNR, pois o divórcio haveria sido ipso facto.

Com boa sorte e aproveitando sua posiçao privilegiada em ambos os bandos, nosso herói de 2009 talvez encontrasse o modo de tocar um "negocinho" que lhe permitisse atingir as metas* para que o deixassem avançar e o protegessem. Com o tempo acolheria em sua rede de corrupção "não registrada" a mesma quantidade de policiais quanto de delinquentes.

* Meta: Polícia

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Pomba da liberdade


Foto: Claudio Fuentes Madan

Na escola primária zombavam de mim porque eu não falava palavrões, no sexto ano fui premiada como Beijo da Pátria e quando entramos na secundária senti como um soco no peito. Meu desconforto não era porque eu tinha sido verme desde pequena, mas sim porque me parecia que a Beijo da Pátria deveria ser eu, que bastantes comunicados havia escrito e lido, também, além disso, ela era linda, tinha um restaurante ( paladar) e eu era gorda e com o pai em desgraça.

Porém na secundária fomos juntas para um campo de batatas doces, uma ao lado da outra desmatando canteiros infinitos, matando vermes e estreiando juntas o título de Brigada Não Cumpridora: ficamos amigas. Em tres anos mudamos de meninas para adolescentes juntas e não houve um instante entre meus 12 e meus 14 em que não houvesse estado - em boas ou más - ao meu lado. No nono grau - apesar de nossas boas notas - já éramos famosas negativamente: ouvir rock, ler novelas "complicadas" e sermos as mais excêntricas possíveis nos custou caro, à mim em casa e à ela na escola.

Aos 14 anos passou por um Conselho Disciplinar em aula, alguns alunos se levantaram e a denunciaram: fuma, ouve rock and roll, fala coisas indevidas, reúne-se com elementos antisociais, etc. Apesar de ter tido 100 de média não pode ser a primeira da lista, relegaram-na ao terceiro lugar. Nesse mesmo ano sua família ganhou o bombo (loteria de emigração) e foram-se todos para os Estados Unidos, estivemos quase dez anos sem nos ver e ainda que já não aspiremos nem a ser o Beijo da Pátria nem a entender a origem do universo - entre outras ambições - continuamos sendo amigas.

Veio a pouco e pôs-se em contato com o grupo da secundária, aquele que um dia quis tirar-lhe seus direitos acadêmicos a força de ideologia extremista. Para a minha amiga já não importa, chamou em nome dos velhos tempos, da adolescência perdida e da nostalgia. Com certeza uma das garotas que mais lhe apontou o dedo não havia esquecido. Para a antiga denunciante tudo aquilo significava algo mais: tirar do peito a culpa de repressor, de delator e de injusto. Pediu desculpas à antiga vilipendiada e eu não sei se respira melhor a partir desse dia. Alegro-me pelas duas.